Morte e vida na Nascente

foto -Luíz de Campos Júnior

Feriado de dia dos mortos, fomos na Praça da Nascente plantar.
Mas a terceira nascente do barranco estava seca.
Chegamos perto e ajoelhamos pra ver o olho. Enfio o braço dentro da terra até o ombro. Na ponta dos dedos, a água em gestação.
Perguntamos pra água se ela quer ser lago, rio, mar. Ela diz que sim.
As crianças chegam em bandos e tiram as roupas e os sapatos.
As maiores logo sobem pra ver a nascente que secou. As menores se livram das fraldas, correm, tropeçam, levantam e alcançam o lago lá embaixo. Água boa pra banhar, mas não bébe que tá cheio de girino!
Na beira da nascente que secou, mãos delicadas inventam o caminho da água.
Com os dedos abrimos um buraquinho. A água brota devagar, desenha-se em espirais e reflete enfim as nuvens. O rio quer ver o céu.
Um sapo foi descoberto. Grande algazarra. Os pequenos gritam bem alto, é urgente ver o sapo. As crianças maiores cortam caminho pelas bananeiras do barranco. O sapo! O sapo!
Voltamos pra beira da nascente. Já escorria em arabescos o riozinho novo.
Imaginamos por onde seguirá depois daqui em seu destino.
Na beira da nascente que reviveu viramos então os deuses que somos. Cada um era um deus. Deuses morenos, deusas azuis, deuses flamejantes, deusas de amor, deuses cúmplices da vida e da morte.
Cada criança carregava nas mãos um punhado de argila da nascente.
Então fizeram bolas bem redondas que eram os novos mundos e enfeitaram com sementes.
O sapo foi posto pra dormir debaixo da pedra.
Revivida, a água da nascente virou lago, rio, mar.

https://www.facebook.com/PracaDaNascente

foto -Didier Lavialle

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